terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Uma história (re) contada

Encontrei esse vídeo na internet (cujo título traduzido é "O Animador") e achei bastante sugestivo no quesito "narrativa", reportando-se ao valor da memória e nossa história de vida. Muito divertido e reflexivo, vale a pena ver. Comentem assim que o virem! (Giancarlo)
Retificação: Essa animação não é do Animamundi como divulgado mas, mesmo assim, é muito boa!

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Documentário Histórias

Primeira iniciativa do gênero no Brasil, documentário “Histórias” reúne especialistas de diversas regiões do Brasil e do mundo para mostrar o poder da oralidade na formação do ser humano, tendo como cenário a cidade do Rio de Janeiro.
As culturas e tradições que povoam a humanidade e ganharam forma graças a oralidade servem de ponto de partida para “Histórias” documentário brasileiro que traça um inédito painel sobre o ato e a importância de contar histórias para o ser humano.
Produzido em 2005, com direção de Paulo Siqueira (diretor, autor, atualmente é diretor artístico da Ópera Prima Produções), roteiro de Marcio Allemand (roteirista, jornalista e produtor) e produção executiva de Benita Prieto (atriz, produtora cultural, especialista em literatura infanto-juvenil e contadora de histórias do Grupo Morandubetá), “Histórias” trata de culturas e tradições diversas desde antes do homem falar, quando se expressava pelas pinturas e danças; culturas orais, escritas, até a atualidade, onde as várias mídias disponíveis oferecem novas possibilidades para as histórias, os contadores e seu impacto sobre a humanidade.
Segundo Benita Prieto “o documentário reúne depoimentos de contadores de histórias de diferentes regiões do Brasil, Espanha, Camarões e Ghana, que são o fio condutor da história. Cada artista fala sobre a tradição dos contadores de histórias em seu país de origem. Contam histórias originais... causos, curiosidades... que vão sendo costurados ao longo do documentário, mostrando a universalidade da oralidade e do ato de contar histórias”.
O filme começa discutindo a possibilidade de um mundo sem histórias, o que é impossível, por isso nesse momento só há sons e não há imagens. “Em nossa concepção cinematográfica, esse mundo não existe. Conduzimos o espectador por uma viagem de descobertas: antes mesmo da capacidade humana de falar, o homem contava histórias através das pinturas ruprestes, das danças... O filme então entra na cultura oral. Nesta há mais poesia, as pessoas não são tão racionalistas, há mais integração, compartilhamento, as histórias funcionam como ferramenta de educação, de socialização, de explicação do mundo e etc” explica Paulo Siqueira. (...)
“Histórias” é uma importante contribuição para a valorização e entendimento da arte de contar histórias como elemento essencial na construção do mundo.
Fonte do texto: http://www.target.inf.br/

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

O melhor contador de histórias

E como nesse período estamos falando de histórias que nos marcam e dos que contam histórias, aí vai uma história muito boa...

ERA UMA VEZ.... um rei. Não era um rei feliz. Ele notou que seus súditos não prestavam atenção a menor atenção em seus decretos e mandatos. Percebeu também que eles se aglomeravam e se sentavam aos pés dos contadores de histórias na praça do mercado, nas casas de chá ou nas pousadas.

O rei decidiu aprender o segredo dos contadores de histórias. Convidou-os ao palácio com essa finalidade. Alguns disseram que era a sua linguagem, outros que era a experiência, outros, ainda, que era a imaginação.

Cansado de ouvir tantas opiniões, o rei despediu-se deles pedindo que se dedicassem a escrever artigos sobre as qualidades de um bom contador de histórias.

Os contadores voltaram após cinco anos com milhares de papéis escritos. Mas, de novo, o rei ordenou que voltassem com uma informação condensada de tudo aquilo. Cinco anos se passaram quando voltaram trazendo um livro bastante pesado. O rei não tinha tempo para ler, pois estava muito ocupado com as questões políticas do reino. Pediu-lhes, então, que fizessem um resumo de uma página com o essencial daquelas informações.

Os contadores passaram mais cinco anos trabalhando na essência do assunto. Finalmente, apareceram com uma folha de papel e entregaram-na ao rei.

O rei pensava que, de posse desse conhecimento, poderia tornar-se o único contador do reino. Aqueles eram seus rivais, obviamente. Mesmo tendo trazido seu precioso conhecimento sobre como se tornar o melhor contador, ainda assim eles seriam competidores, e o rei queria ser o melhor deles. Inevitavelmente, se o rei se livrasse de todos eles, não haveria como não se tornar o único e o melhor contador do reino.

Assim, o rei anunciou que iria agradecer pessoalmente a um por um o trabalho. Afinal, anos de dedicação haviam tornado possível aquele projeto.

Assim foi feito: ele recebia cada um, oferecia-lhe um premio e apontava a porta de saída. Do outro lado, porém, encontrava-se o carrasco esperando para executar o pobre infeliz, mandando-o para o outro mundo.

Depois que o rei finalmente ficou sozinho, com suas mãos tremulas, abriu o papel preparado para ele. Lá estava escrita somente uma frase:

“ O melhor contador de histórias é aquele cujas histórias são lembradas muitos e muitos anos depois que seu próprio nome tenha sido esquecido.”

E vocês, lembram de alguma história dessas inesquecíveis?

Fonte: Matos, Gislaine e Sorsy, Inno.O ofício do contador de histórias: perguntas e respostas, exercícios práticos e um repertório para encantar. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

E lá vem uma história...

É com essa chamada que trazemos uma história contada por Clara Haddad,famosa contadora de histórias. Muito boa de se ouvir e muito boa para percebermos o que fazemos da vida... Entrem no endereço e divirtam-se!!
A história do homem sem sorte do site Roda de histórias.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Histórias da infância distante por Gilka Girardello

A cena da avó na cadeira de balanço contando antigas histórias para os netinhos é coisa do passado nas grandes cidades de hoje - afinal, mudaram as famílias e mudaram as avós. Mas podemos tomar essa imagem de um jeito mais simbólico, mais arquetípico, referindo-se a todos os adultos que contam coisas de sua infância para as crianças. E aí a cena poderá virar fonte de energia e de inspiração para o trabalho dos contadores de história de hoje.
Um poeta e pedagogo russo, Kornei Chukovski, disse há quase cem anos que tendemos a contar às nossas crianças as histórias, poemas e cantigas que mais nos tocaram quando nós próprios éramos crianças. E que só nos ficaram na memória aquelas que tinham algo de especial, engenhoso ou profundo. Assim, diz Chukovski, no fim das contas quem escolhe as histórias para as crianças de hoje são as crianças de ontem! Como numa corrida de revezamento, a criança de uma geração recebe uma tocha e atravessa a vida carregando-a acesa na profundeza da memória para entregá-la à criança que espera ansiosa na próxima curva do percurso.
Se isso vale para as histórias e cantigas que ouvimos quando crianças, vale também para as narrativas de nossas pequenas e grandes aventuras cotidianas. Muitas vezes meu pai nos contou – a mim e aos meus irmãos - da primeira noite em que a luz elétrica iluminou sua cidadezinha natal, no interior do Rio Grande do Sul, quando ele tinha uns cinco anos de idade. “Me lembro como se fosse ontem”, dizia, e os olhos dele se iluminavam como as ruas e a praça onde em 1925 o povo boquiaberto se maravilhara com a chegada do futuro.
Aos poucos também as histórias que a gente viveu vão ficando antigas – dependendo de quem ouve e por mais que o fato nos pegue de surpresa - e com sorte vão ganhando um discreto charme por conta disso. Lembro do assombro incrédulo na cara de meus filhos quando lhes contei do dia em que a televisão – em preto-e-branco! - chegou na nossa cidade, a Porto Alegre da década de 60. Era um assombro parecido com o que eu devia mostrar a meu pai quando ouvia as suas histórias de menino.
Os casos que lembramos de nossa própria infância são aqueles que mais impressionaram a menina ou o menino que fomos, ainda que nem sempre saibamos por quê. Frequentemente esses casos têm a ver com coisas que vimos pela primeira vez, não só novidades tecnológicas como a lâmpada elétrica ou a televisão, mas todo o contato com o novo. Quem não tem uma história de família sobre a primeira vez em que uma criança viu o mar? A primeira viagem de avião ou de barco, o primeiro encontro com um grande animal (seja o cavalo no pasto ou o leão no circo), a primeira vez em que quebramos um braço ou em que nos perdemos na multidão: a primeira vez a gente não esquece mesmo, porque a imaginação infantil se nutre de coisas novas. (...)
Outro caso exemplar é o que Army Capanema, uma narradora de Florianópolis hoje com quase 80 anos, costuma contar: ela era menina e brincava com o irmão no armazém de secos-e-molhados de seu pai quando caiu dentro do poço onde era guardado o feijão a granel. Ouvi-a contar esse caso mais de uma vez e ouviria muitas mais, tão saborosa é sua performance. Army conta que o armazém vendia de tudo e era o ponto de encontro da região: “como um shopping”, ela explica. E segue, pontuando seu relato com comentários coloridos e divertidos, com a autoridade de quem é dona daquela história. Em sua voz, ressurge à nossa frente a menina moleca e arteira que ela foi, e que de certo modo continua sendo – ou não nos faria rir tanto com sua pequena desventura.
Graciliano Ramos, Sartre, Walter Benjamin e tantos outros escreveram livros inteiros dedicados às lembranças longínquas de seus primeiros anos; são relatos às vezes cheios de névoa, outras vezes surpreendentemente precisos. E García Márquez chegou a dizer que nada de interessante lhe aconteceu após os oito anos de idade, nascendo das suas lembranças de infância todo o poder gerador de sua obra. O olhar da criança agiganta e enche de significado os pequenos detalhes do cotidiano, como o torneado de um móvel, o pregão de um vendedor, os rituais familiares.
Quando o olhar enfeitiçado da criança se depara com incidentes que são marcantes também para os adultos, então o efeito se intensifica. Vem daí a vividez das imagens que guardamos dos grandes acontecimentos históricos que vivemos, ainda que de longe ou pela televisão. Essa nitidez está por trás do jogo narrativo que começa com a pergunta: “onde você estava quando.....? Gente da minha geração lembra, por exemplo, o golpe de 64 ou a chegada do homem à lua, que aconteceram quando éramos crianças. Outros perguntam o que os amigos estavam fazendo quando souberam da morte de Ayrton Senna, dos Mamonas Assassinas, ou da queda das torres de Nova York. A memória vai salvando aquelas cenas de nossa vida com as cores do mito, e isso passa para o relato oral, tornando-o especialmente valioso.
É clara a importância das pequenas anedotas de família – esses casos de nossa infância que contamos aos filhos e filhas, sobrinhos ou netos - no processo de identificação e auto-construção das crianças. Mas as histórias da infância dos indivíduos têm um papel que transcende a família: elas podem trazer coesão, significado e riqueza simbólica a comunidades inteiras. Que não tenhamos que esperar os cabelos brancos para compartilhar nossas mais divertidas, assombrosas e emocionadas histórias de infância. Mesmo crianças de oito anos podem sentir suas próprias primeiras lembranças misteriosas e distantes como fotos desbotadas, o que enche de encanto seus recontos. Quanto a quem já viveu muito, as memórias da infância podem estar tão tenras e frescas, que tornam-se apenas um jeito de contar não o que se foi um dia, mas o que se continua sendo.
Gilka Girardello é professora do Programa de Pós-Graduação em Educação e do Curso de Pedagogia da Universidade Federal de Santa Catarina. É Coordenadora do Núcleo Infância, Comunicação e Arte da UFSC, contadora de histórias e jornalista. Autorizou a publicação desse artigo que foi originalmente publicado no site cultura e infância.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Ficção e realidade se [con]fundem por Silvia Beatrix Tkotz

Essa mania que peguei de ficar registrando as conversas que tenho com alguns amigos pode acabar me comprometendo... Mas, ciente de como as pessoas têm um interesse natural – ou seria cultural? – em ouvir conversa dos outros, acabo apostando que esta é uma boa maneira em arregimentar leitores para meus escritos.
Foi escrevendo conversas que redigi parte de minha dissertação de mestrado. Ficou curiosa? Curioso? Digite “www.proped.pro.br”, e abrirá o “Programa de Pós” da UERJ. Clique em dissertação. Por fim, digite TKOTZ, em autor. Boa leitura!!! E, depois, se puder enviar uma crítica, um comentário e/ou preferencialmente um elogio... Brincadeiras a parte, essa é uma conversa que me interessa.
E, para não perder o costume, vou contar para você uma dessas conversas que venho travando com alguns amigos. Quem sabe você não conhece alguns deles e acaba se animando em participar?
Pois foi outro dia... Jorge estava a defender a força das palavras como elementos criadores da realidade:
– A aventura que nos conduz à consciência de que o eu não é senão uma contínua criação, uma permanente metamorfose (...) tem sua força impulsora no processo narrativo e interpretativo da leitura e da escrita (...) já não existe um ser substancial a ser descoberto e ao qual ser fiel, mas apenas um conjunto de palavras para compor, e decompor e recompor. (...) A fidelidade às palavras é não deixar que as palavras se solidifiquem e nos solidifiquem, é manter aberto o espaço líquido da metamorfose (...) Só assim se pode escapar, ainda que seja por um momento, aos textos que nos modelam, ao perigo das palavras que, ainda que sejam verdadeiras, convertem-se em falsas uma vez que nos contentamos com elas (Larrosa, 2003:39-40).
Extasiada, comentei:
– Por isso é tão forte a escolha das palavras, pois, assim como as palavras criam a realidade, elas criam, também, a ficção. E a beleza da ficção é ver realidade nas palavras. No caso de “Ternura e dor: a história de um colégio aionista”, no entanto, esforço-me por engendrar ficção nas palavras, ao idear literaturizar o conhecimento em minha dissertação de mestrado.
Jorge continuou, provocando-me, e Clarice, como o tema caminhou para a literatura, veio embelezar a discussão:
– Como evitar, então, a suspeita de que a crescente profusão de palavras e de nossas histórias não tem como correlato o engrandecimento de nosso desassossego (Larrosa, 2003:23)?
– Cada coisa é uma palavra. E quando não se a tem, inventa-se-a (Lispector ,1998:17). Nossa conversa foi tão profunda que personagens inesperados vieram contribuir. Já ouviu falar de frei Guilherme de Baskerville? Pois, disse ele:
– Talvez a tarefa de quem ama os homens seja fazer rir da verdade, fazer rir a verdade, porque a única verdade é aprendermos a nos libertar da paixão insana pela verdade (Eco,1983:552).
E Adson de Melk , outro personagem, entrou com uma forte colocação:
-[A verdade] outra coisa não é senão a adequação entre a coisa e o intelecto (id.:351).
Esquentando, frei Guilherme continuou:
- Diante de um livro não devemos nos perguntar o que diz, mas o que quis dizer (id.:361).
Jorge não se conteve e voltou à conversa, interessado em provocar você e fazê-la não resistir em se colocar.
– O misterioso expressado poeticamente, ao conservar seu mistério, conserva-se como uma fonte infinita de sentido (Larrosa, 2003:75).
Agora, preciso ouvir você! Indispensáveis são as suas palavras. Antes, deixo apenas mais informações sobre os amigos que participaram desta conversa. Pode ser que venha a desejar ter uma prosa mais aprofundada...
ECO, U. O Nome da Rosa. Tradução de Aurora Bernardini e Homero Freitas de Andrade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983.
LARROSA, J. Pedagogia Profana: danças, piruetas e mascaradas, tradução de Alfredo Veiga-Neto. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.
LISPECTOR, C. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
Silvia Tkotz é professora da Universidade Estácio de Sá e vem acompanhando atentamente as discussões do grupo, sempre trocando idéias aqui no BLOG, sendo convidada para compartilhar com todos um pouco da sua produção.