sexta-feira, 10 de outubro de 2008

O olhar e a foto – sobre Clarice Lispector

"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..." Clarice Lispector
Nossa entrada no CCBB para ver, ouvir e falar com Clarice Lispector foi triunfal. A recepção permitiu articular o visual da artista pousado numa grande teia de maneira a se chegar e aconchegar a cada um de nós. Chegar é diferente de aconchegar.Chega-se pela primeira vez...Daí em diante, aconchega-se ou não se chega mais. As palavras permitem tal tipo de brincadeira...Mas será mesmo brincadeira ou desbordar da realidade que se percebe com o coração?
Interessante observar: a máquina fotográfica impedida de chegar...Chegamos nós e a máquina, do lado de fora. Fez-me lembrar texto de Saramago quando ele conta que, em sua meninice, queria saber como eram as coisas, quando o olho não as olhava... Curiosidade brava, mesmo! E pensou na máquina fotográfica para ajudá-lo a capturar as coisas, ela sozinha, onde não houvesse ninguém. Mas esqueceu-se de que, onde há uma máquina fotográfica, há um olho humano por trás....E, assim, entramos sem máquina para ver Clarice... Não se podia fotografar nada, no ambiente...Continuei me lembrando do Saramago...Adolescente, ainda, não conhecia muitas coisas da alma humana... Entendi por que deixar a máquina do lado de fora... As meninas não se conformavam. Teimavam em registrar, com a máquina...Continuei pensando no Saramago...Que bela lição! Para que as máquinas? Para registrarmos o belo, o prazeroso, eternizar o momento...Ássim que pensamos. Com a máquina, segurar o efêmero... Um olho humano conduz a máquina...Assim, para que a máquina, se há o olho humano? Ele garantirá os registros com a alma, com a sensibilidade, cheios de nuances...
As coisas são mais espertas e não se deixam enganar com facilidade..., nos diz Saramago. As coisas sempre arranjam um jeito de se tornarem eternas....Quaisquer coisas? Aquelas que nos tocam a alma... Essas dispensam a máquina... Continua Saramago a nos instigar.. Para onde vão essas coisas, que não se registram na máquina? Com certeza caminham para a memória, guardadas a sete chaves, permanecendo em lugar nenhum e em todos os lugares, quando tocadas por um raio de curiosidade, de paixão e de êxtase, que desencadeia o rememorar em narrativas que, aos borbotões e fúria, permitem a luz reacender e o momento registrado na alma, reviver.
Assim percebi Clarice, em todo o seu esplendor, viva naquele momento e imortal em minha alma.
Sandra La Cava

5 comentários:

Adriana Hoffmann disse...

Sandra,
Já te disse que adorei esse seu texto, não? Traduz muita delicadeza e sensibilidade no olhar e a discussão sobre a foto dá o que pensar...
Beijos,
Adriana

Maria Clara disse...

Professora Sandra,
que prazer imenso ler um texto seu. Brilhante enlace entre a máquina e Saramago.
É sempre maravilhoso poder admirar uma escritora como você!

mônica disse...

Professora, sempre querida. Que lindo o que escreveu...Interessante, que logo no início percebi traços seus no caminho das palavras, seus toques de percepção, que me leva a sempre refletir sobre a busca do belo, principalmente o que está dentro de nós.
Bjs.

Giancarlo disse...

Sensacional, professora!
A soma da experiência pessoal com a sensibilidade, estimulada pela poética exposição de Clarice permitiu uma produção tão bonita como essa. Parabéns!!!
Beijos!
Giancarlo

Anônimo disse...

Professora Sandra.
Será que as meninas não seguravam a máquina tal e qual a menina do conto de Clarice Lispector segurava o livro de Monteiro Lobato?
Viajei novamente em sua narrativa...
BJS
Célia