terça-feira, 28 de outubro de 2008

O professor, o leitor e a narrativa... – refletindo sobre o nosso processo de formação

Um comentário da professora Silvia me fez ter vontade de escrever esse texto. A experiência que vivemos hoje na oficina da Rural também. Afinal, o que nos forma enquanto leitores, professores, profissionais?
Quantas vezes não ouvimos nos diferentes espaços de atuação as pessoas dizerem que “a Universidade não os preparara para serem leitores, para serem profissionais competentes e etc”?
Posso dizer a vocês, leitores, que as aulas no Magistério (Curso Normal) e Universidade (curso de graduação, especialização, mestrado e doutorado) também não me prepararam para ser professora. Não nessa ótica de que falam as pessoas, do aprender a fazer com uma receita... Aprendi a partir desses espaços a refletir, a articular conhecimentos, a buscar as referências para as minhas dúvidas, a consultar profissionais e a trocar experiências com outros sabendo que por mais que eu aprenda sempre há algo mais para aprender... Sabendo que é essa articulação criadora que me forma e está me formando sempre como pessoa e profissional.
Enquanto professora sei que a sala de aula nos desafia continuamente a cada vez que nos defrontamos com um público diferente, um contexto diverso, um novo livro lançado, uma pesquisa recentemente concluída, um filme que nos fez pensar... Tudo isso nos desafia a articular o nosso olhar à sala de aula, trazer o universo mais alargado do nosso olhar pela experiência vivida para que, assim como nós aprendemos a ver diferente a partir de nossas buscas, os nossos alunos também busquem sempre. Esse é, na verdade, o papel do professor: o de provocador da curiosidade dos alunos, do início da busca na sala de aula e na vida. A escola (e as instituições educacionais em geral) podem ser esse espaço de formação se as pessoas (professores e alunos assim o quiserem).
Mas sabemos que provocar o pensar, o ver dá trabalho... Nossa busca é sempre nova a cada nova experiência se temos a curiosidade da aprendizagem. Do contrário, bastará reproduzir o que está nos livros, não criar nada de novo, nada seu, nada que seu olhar e sua experiência possam trazer de novo... Agem assim os que acham que sabem tudo e que, por isso, não podem ver duas vezes um mesmo filme, voltar a um livro, olhar de novo para a mesma situação já vivida... Só assim se aprende.
A experiência que este grupo do PIC está vivendo é parte disso. Mostra, por exemplo, como uma oficina aparentemente “igual” pode ser tão diferente quando vivida junto a um público de um contexto diferente, uma cidade diferente, com experiências e faixa etária diferente. Imagine se eu tivesse uma “receita” de oficina que funcionasse do mesmo jeito em qualquer contexto e público... Se eu tivesse a “fórmula”, a oficina não seria com “pessoas” e eu talvez não estivesse aqui. Conseguida a “receita” para que precisaria eu continuar estudando, buscando livros, vendo filmes, indo a eventos, trocando experiências com outros se eu já tivesse a “fórmula” que dá certo sempre?
O professor tem esse desafio de, ao lidar com o ser humano, viver constantemente essa incompletude do ser que sempre cresce mas que nunca se completa... Nos formamos em todos os espaços e são tantos os espaços que muitos ainda não descobriram tudo o que os forma a cada dia. Que as experiências vividas por cada um de nós sejam sempre formadoras... E só serão formadoras quando se faz disso, motivo de reflexão, de troca e de aprimoramento constante de nossa ação enquanto professores e alunos que somos nos diferentes contextos em que vivemos.Vamos pensar sobre isso?
Adriana Hoffmann

7 comentários:

Célia disse...

Adriana nunca estive em sala de aula como professora, mas imagino, construo situações que me levem a entender esse momento.Mas confesso que não consigo supor como ele se passaria.Tenho a concepção que estar em sala de aula como professor seja algo muito importante e que requer muita responsabilidade e principalmente muita flexibilidade do olhar. Ver inicialmente o outro, entende-lo antes de si mesmo é uma tarefa muito difícil, mas necessária.Aguardo minha primeira experiência, posso me surpreender, mas sei que posso me decepcionar, não com o outro mas comigo mesma.Mas que minhas decepções, como você mesmo disse, me levem a procura do conhecimento e do entendimento.

Muito pertinente seu texto, obrigada!!!!!
Beijos
Célia

Adriana Hoffmann disse...

Oi Célia!
Decepções e alegrias inesperadas sempre fazem parte do caminho! O que importa é o que fazemos com elas... Se a partir delas nos imobilizamos ou nos abrimos para refletir sobre os desafios que a situação traz... A imobilização é o que não permite a formação. Alguém que espera que o outro diga o que fazer, sem pensar, sem trazer as suas experiências e a experiência desse aluno para a reflexão é alguém que não está disposto a aprender.
Esse não é o seu caso e nem desse grupo do PIC que investe e mostra o quanto viver esse processo em grupo pode ser formador.
Você tem tudo para ser uma excelente profissional e, a partir do seu investimento, vai dar conta dos desafios que sempre surgem em nosso caminho...
Beijos,
Adriana

Anônimo disse...

Olá Adriana e todos que participam do blog. Muito profunda a sua reflexão e concordo que a cada dia é um recomeço e que temos sempre que nos alimentar de novas idéias, novos projetos e sempre compartilhar nossas experiências. Com certeza cada experiência vivenciada é única,mas ao mesmo tempo é a soma de todas as transformações que acontecem dentro da gente.,
Todas as vezes em que realizamos um novo trabalho sentimos que mudanças também ocorrem dentro de nós. Nasce um novo olhar, uma nova expectativa diante de situações inusitadas.
É muito legal ver você contando suas sensações.Dá para sentir que trouxe algo novo para você e é muito bom que você compartilhe conosco essas experiências. Mil beijos!
Luciene Figueiredo

Adriana Hoffmann disse...

Oi Luciene!
Adoro te encontrar por aqui,sabia? Apareça sempre e fale para o povo da sala dar uma espiada e comentar por aqui também!! Aposto que todos têm muito o que contar!!
Beijinhos,
Adriana

Sandra La Cava disse...

Obrigada, Adriana, pela reflexão! Quantos desafios a enfrentar para continuar buscando a formação, o conhecimento, a trans...formação!As dificuldades muitas vezes nos assustam, mas o grande objetivo que temos - buscar partilhar o que conseguimos construir, a cada dia, estimula-nos a seguir adiante. Importante lembrar que a liberdade só é conquistada a partir do conhecimento. Se não o ampliamos, ela também não se desenvolve: ficamos atados, imobilizados, tímidos e sem coragem de nos manifestar. Este estado gera a inércia e a estagnação. Mas a busca e o conseqüente encontro fazem-nos criar asas para voar...Quer sensação mais grandiosa? É por isso que entrar na sala de aula é grande desafio para a construção de nossa liberdade. Nossa e de nossos alunos...Portanto, busquemos conhecer para sermos cada vez mais livres!
Obrigada pela oportunidade de me fazer mais livre!
Um beijo,
Sandra

Sandra La Cava disse...

A você, Célia, que se diz preocupada em assumir sua missão de educadora, na sala de aula!

Posso lhe dizer que muito de seu potencial, na sala de aula, virá das experiências que já teve durante a vida e da formação que procurou construir com tanto empenho e responsabilidade.A vida vai npos preparando como educadoras em diferentes espaços, não é mesmo? Lembre-se de que o caminho, faz-se...caminhando e buscando conhecer mais. Você se recorda do Conto da Ilha Desconhecida, do Saramago? Tenha certeza de que vale a pena buscar...
Um beijo,
Sandra

célia disse...

Me lembro sim do conto de Saramago, é só abrir e passar pela porta das decisões.
obrigada Sandra e Adriana, vocês estarão presentes quando abrir a porta e passar por ela.
Beijos
Célia